A oração é a saúde da alma e do corpo parte II

A geografia da oração

Quando achava orgulhosamente que eu poderia ser “teólogo”, colocava-me uma pergunta angustiante e ao mesmo tempo soberba: “Para que serve ficar diante de Deus em silêncio, suplicando pelos problemas dos outros e meus, quando ao meu lado o mundo pega fogo, os homens passam fome, a injustiça vai aumentando e o mal avançando? Para que desperdiçar tempo precioso em “cânticos, orações, adorações” se é necessário agir, fazer algo para melhorar um pouco o mundo em que vivemos?” Estas perguntas e outras semelhantes sempre estiveram presentes e sempre existirão. Delas ninguém escapa. Mais cedo ou mais tarde, na confrontação conosco mesmos, assalta-nos a tentação da inutilidade da oração e queremos justificar tudo com o FAZER, embora defendamos a importância do SER.

A incoerência está presente na natureza do ser humano, faz parte da fragilidade e da carga pesada de “pecaminosidade” que carregamos dentro de nós; é uma realidade que nos acompanha ao longo de toda a existência: vemos com clareza o bem que devemos fazer e acabamos fazendo o mal que não gostaríamos de fazer. Diante da constatação de minha incoerência, há muitos anos, decidi fazer uma pesquisa que, se não me convenceu, ajudou-me bastante a clarear as idéias sobre o “mistério da oração”. Será que a oração é somente uma idéia fixa dos católicos, dos místicos, dos fanáticos, ou uma necessidade do ser humano? Dizem que, quando uma coisa se encontra presente em todos os seres humanos, é uma atividade humana indispensável e faz parte de sua estrutura fundamental. Assim, comer, dormir, pensar, amar, criar, viajar, conhecer, dialogar, rir, chorar…são atividades que encontramos presentes em todos os povos. Um elemento indispensável na vida humana, como tal é a Religião. Em nenhum povo – e você mesmo pode fazer esta pesquisa através de enciclopédias e dicionários – está ausente o fator religioso nos seus vários matizes.

É uma descoberta fascinante constatar que todos os povos buscam um relacionamento com o Senhor e fazem de Deus o centro da própria vida. Mesmo por caminhos nem sempre retos Deus se revela. Buscá-lo já quer dizer tê-lo encontrado. A oração nasce da consciência de nossapobreza. À medida que nos sentimos pobres, necessitados, vamos ao encontro da riqueza e da nascente da água viva que é o amor. O “Magnificat”, o canto de Maria, nasce de sua humildade e pobreza: “Deus olhou a humildade de sua serva” (Lc 1,43). Os místicos não têm medo de ser ousados quando falam de Deus como fonte de riqueza e de amor misericordioso. Agostinho, na sua ansiosa busca de Deus, diz: “nós somos os mendigos diante de Deus”. Estamos sempre de mãos estendidas, esperando que Ele venha em nosso socorro. Todo pobre, seja qual for a sua pobreza, tem plena consciência de que não tem direito a nada, que tudo o que recebe é dádiva, misericórdia. Assim é o doente que estende a mão para o médico; o mendigo que, à beira da estrada, pede um pedaço de pão; ou como o aluno que, na sua pobreza, pede que lhe seja comunicada a sabedoria… É preciso reconhecer que nos falta algo para sermos felizes e buscar tudo isso com profunda humildade; ninguém pode se aproximar e estar diante de Deus buscando ter “direitos” a fazer valer. Deus rejeita os soberbos e os orgulhosos; os ricos vão embora de mãos vazias e os famintos são saciados.

Sem dúvida, uma das santas mais ousadas nesta visão da oração como pobreza-riqueza será Santa Teresinha do Menino Jesus que, nas suas loucuras de amor, não tem medo de dizer: “Deus é o grande mendigo, Ele mendiga o nosso amor”. A fome que Deus tem de nós é infinita, por isso Ele tem sede que nós tenhamos sede dele. É Ele quem se abaixa no mistério da encarnação, que “deixando a tranqüilidade de estar no seio do Pai” através de um completo esvaziamento, uma Kénosis, Ele se reveste de nossa humanidade e caminha entre nós. Jamais, em nenhuma religião, nenhum Deus se fez “carne” para estar com a humanidade dia e noite e fixar sua morada entre nós. A oração se entende a partir da perspectiva: a) da riqueza de Deus e da pobreza humana; b) da “pobreza” de Deus e da riqueza humana. Uma pobreza divina que é extrema riqueza vem a nós, dando-se sem se esgotar e doando-se sem diminuir.

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